sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Só é baitola mesmo quem dá?...


Só é baitola mesmo quem dá?...

Para o latino tradicional só existe homossexual passivo, o ativo é apenas um heterossexual que prefere homem. No Brasil a convicção de que só quem dá é baitola explica outras características nacionais, como a curiosa existência de corruptos sem corruptores (a Operação Lava Jato é apenas um ponto fora da curva).

Quando descobriram o esquema do PC Farias no governo Collor publicaram a lista dos que davam dinheiro para as empresas do PC com o entendimento tácito de que estavam garantindo a boa vontade do governo. A lista era um rus-rú do empresariado nacional. O Collor renunciou para não ser impixado e o PC teve que fugir, mas nenhum dos que compravam serviços fictícios da firma do PC sofreu qualquer tipo de embaraço ou consequência. Eram todos heterossexuais convictos aproveitando-se de uma oportunidade oferecida, já que – suspiros – é assim que se faz neste país de viciados.

O coitado do Magri foi varrido do ministério do Collor para o seu atual ostracismo depois da publicação de uma conversa telefônica em que tratava de uma (modesta) propina com um
homem de negócios. O homem de negócios continua sendo um líder respeitado no seu setor.
Também estava apenas se entregando à prática por uma necessidade passageira, não por gosto.

O Pedro Simon tentou durante anos formar uma CPI para investigar o escândalo das empreiteiras. Finalmente teve que desistir por um motivo singelo: demorou tanto que ninguém se lembrava mais qual era o escândalo das empreiteiras.
Puniram os que venderam seus votos para a provação da reeleição do Éfe Agá, presumivelmente para o Espírito Santo – o da Santíssima Trindade, não o estado – já que nunca se ficou sabendo que os comprou.

A mais nova manifestação da doutrina baitola-é- quem-dá veio com a CPI do narcotráfico, que ainda não investigou o maior mistério de todos, ou o grande paradoxo brasileiro: um mercado de tóxicos que só tem fornecedor. Um mercado que só dá. Ninguém consome tóxicos no Brasil, e nem por isso o mercado deixa de crescer. Isso explica o fato de as notícias do lado
fornecedor serem tantas e tão espetaculares. Morros em que a polícia não entra dominados por traficantes, regiões inteiras aterrorizadas por tzares intocáveis da droga. É tudo para compensar o grande silêncio sobre a outra parte do mercado, a parte não espetacular, a parte que não existe.

Não se quer criminalizar o uso da droga ao ponto em que chegaram os Estados Unidos, onde o endurecimento da repressão também é uma estratégia de controle político. Algo como um em
cada quatro jovens negros americanos está na cadeia pelo uso de drogas, ou seja, está onde o governo pode vê-lo, em vez de na guerra urbana. Também é um bom negócio. Dizem que a
segunda indústria da Califórnia, depois da de informática, é a de construção de cadeias. Mas lá rico também vai preso. Seria interessante ter, de vez em quando, uma visão do mercado
consumidor brasileiro, do lado comprador, dos ricos. Não dos que estão nos morros, mas dos que mandam baixar. Só por curiosidade mórbida. (LFV)